sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

QUEREM SEQUESTRAR A FILOSOFIA DE NÓS: cenas do cotidiano

por Inajá Martins de Almeida - 02/01/2015

Nada de novo o título nos mostra.Quantos sequestros todos os dias: Sonhos. Ideais. Realizações. Fracassos. Ganhos e perdas. A lista engorda. Mas, querer sequestrar a filosofia de nós - impossível!

Somos influenciados? Influenciamos?

Interessante a conjectura. Se somos influenciados por pessoas de grande influência, de grande visibilidade, isso pode ter um peso, quem sabe um valor maior aos olhos. Mas, e se o oposto ocorre, será que se pode ver com olhar diferenciado?

Assim, como seria a influência que exercemos, nós anônimos?

Percebemos então que quanto mais altas esferas, a visibilidade extrapola horizontes, quebra limites e atinge fronteiras inimagináveis. Porém, importa-se com isso os que detém a visibilidade a seu favor? Percebemos também que, muitas vezes, não?

Mas o que podemos pensar e dizer sobre influências no cotidiano? Pessoas comuns, anônimas que nos bastidores não se importam com o estrelato, ao menos com o anonimato, mas que exercem influência.

A doença brusca e cruel modifica o projeto de vida de uma jovem linda, modelo aos padrões da beleza em passarelas.

Cabelos longos, compostos, reluzentes ao brilho do sol, macios, cobiçosos a olhares, agora entregam-se às tesouras. Mãos hábeis dão início ao processo do corte. Antecedem a medicação química que não terá cuidados necessários na organização dos fios, que cairão e se espalharão ao léu.

É agora o pensar filosófico que dá encaminhando ao fato. O processo da poda. O aproveitamento. A utilização da colheita. O reaproveitamento dos fios, na confecção de uma peruca, dá início o processo de mudança.

Encontros inesperados. Busca por estimas quebradas. Os cabelos a representarem apenas os fios externos, ponta do iceberg que se esconde no interior ferido, magoado, alcançado pela cruel degeneração das células -  sorrateira a roubar da vida saudável a perspectiva  de realizações inesperadas.

Aí inicia-se o processo das intenções. A percepção do que se passa no cotidiano. Nas ruas. Nas casas. Quantas lágrimas. Quantas aspirações. Paredes a abrigarem sonhos.  Quantas rachadas, ansiando sutil reparos. 

Como é bom e gratificante os encontros. Resgatar temas para nosso cotidiano. Trazer a tona nosso olhar filosófico. Irmanar nossas experiências. Vivenciar o passado no presente.

Somos filósofos, quem sabe alguns, sem o saber. Quando nosso olhar caminha além das imagens. Além da informação.

Somos filósofos quando buscamos conhecer quem está por trás da informação.

Somos filósofos quando a fazer junção da informação e conhecimento e abstraímos a sabedoria para nosso próprio viver diário.

Somos filósofos quando percebemos que somos influenciados nas mesmas proporções em que também podemos influenciar.

Somos filósofos quando percebemos a sinceridade nas palavras da jovem em tratamento, ao se sentir "linda", ao perceber que em meio ao drama que vive, pode influenciar e influencia tantas outras pessoas como a si mesma.

Daí percebemos que querem sequestrar a filosofia de nós, porém:

"Não se pode pensar em nenhum homem que não seja também filósofo, 
que não pense, precisamente, porque o pensar é próprio do homem como tal". (1)


Nota: A inspiração para as palavras vieram-me através da Flávia Flores no Programa Hora do Faro - domingo 20/12/2014. Veja alguns links interessantes:



·                     http://entretenimento.r7.com/hora-do-faro/fotos/faro-promove-reencontro-entre-mae-e-filha-em-israel-23122014?foto=5#!/foto/5
·                     http://www.quimioterapiaebeleza.com.br/


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(1) GRAMSCI, Antonio - Obras escolhidas.  São Paulo: Martins Fontes, 1978, p. 45.  In: ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires.   Filosofando: introdução à filosofia.   São Paulo, Moderna, 4ª ed. 2009 - p.16. 


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